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Quando esse escarcéu passar: relato de quem viveu 10 dias em quarentena

Atualizado: Abr 7

Uma de nossas repórteres contou como tem passado o tempo de isolamento social






Texto: Nathaly Correia


Escrevo isso no meu 9º dia de quarentena e até agora venho lidando bem com a falta de contato social, é fato. Ok, não tão bem mas talvez melhor do que alguns amigos que já relatam “loucuras” por conta da abstinência de álcool, sexo, festas e conversas olho no olho. Toque também, que somos humanos, certo? Por hora, venho “segurando a onda” tranquila quanto a tudo isso.

Não que não me faça falta, mas dada a minha situação de ansiosa patológica, tenho tido menos crises e problemas do que pensei que teria e, olha só, a inspiração de escrever parece que veio com a mesma vontade que todos têm de que acabe logo todo esse pesadelo (ou pandemia: é um P sinônimo).

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em tempos de isolamento


Rebobinando um pouco até chegarmos aqui, na quarta-feira, dia 18, ainda estava me deslocando ao trabalho sob protestos de meus pais e já tinha, no dia anterior, dito aos colegas que haveria um momento em que nós precisaríamos começar a trabalhar de casa — e que isso deveria ser o quanto antes já que o trabalho de uma equipe de mídias sociais pode tranquilamente ser feito via home office.

Meu chefe disse, quando comentei sobre, que “a Globo não parou o setor do jornalismo dela, e nós aqui somos jornalismo, né? não vamos parar também”. Eu não tive nem reação para a sugestão que considerei esdrúxula, mas como valia a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, fiquei quieta e continuei indo ao trabalho, ainda mais sob protestos por parte da minha mãe, que dizia ser “absurdo” da minha parte me colocar em risco por um salário aquém e que aquilo não valia a pena (e não, ela não estava errada).

No dia seguinte, depois de comentar durante o almoço com uma moça do RH sobre a sugestão que eu havia dado (do trabalho remoto para todos da empresa), ela riu e disse “fulano? jamais que fulano vai aceitar isso, trabalho aqui há mais de dez anos e o conheço!” eu me indaguei, afinal, o que aquelas pessoas estavam pensando? por que minimizar o risco quando em países europeus como a Itália as notícias de mortes por hora só aumentam?

Quando voltei do almoço, comentei novamente com um colega de setor que ia na sala do chefe dizer a ele que, gostasse ou não, a partir do dia seguinte eu trabalharia de casa, principalmente por ter uma avó de 94 anos que dependia exclusivamente de mim, minha mãe e meu irmão para levar remédios, comida e afins e morava ao lado de nosso apartamento para facilitar, o que me deixava na obrigação de não contaminá-la com o que quer que fosse.

Antes disso, ele me mandou um recado no Whatsapp para que eu fosse até sua sala. E quando cheguei lá, me demitiu. A conversa seguiu um rumo que eu já esperava, de certa maneira e por motivos e fatores que não vêm ao caso agora, sem mágoas e todo aquele papo de que “manteremos contato, esse ano é de eleições e pode ser que eu fale contigo, blá, blá”, ok. Na hora do que seria o aperto de mão, juntei meu cotovelo no dele e fui embora catar minhas coisas, abraçar os remanescentes e rumar para casa.

E assim iniciei meus dias de quarentena em casa: sob vivas da minha mãe, que estava revoltada com o fato de eu não poder trabalhar de casa — e com medo de que alguém da família tivesse o coronavírus por minha causa (ela fará 57 anos dia 31 e minha avó tem 94).

Desde então venho retomando a escrita (finalizando, amém!) do meu TCC de jornalismo e mais uma surpresa: parece até que nunca o procrastinei, que estou num ritmo até melhor do que antes da pandemia. O que o ócio não faz, hein? Dentro de casa lavei os banheiros e valorizei ainda mais o trabalho doméstico e, principalmente, quem o faz.

Briguei com minha mãe no dia do pronunciamento criminoso do presidente em cadeia nacional de rádio e TV e percebi que ela ficou magoada — mas imaginemos quantos não podem morrer por causa de pessoas que pensaram como ela? A mágoa passará, a morte de gente mal orientada, não.

Durante a quarentena só fui até a padaria em frente ao prédio (duas vezes) e à farmácia, na mesma rua — o atendente desta, no balcão quando fui pagar, parecia rir da minha cautela ao tocar nos objetos com papel toalha e tentar manter distância razoável dele e da farmacêutica que me atendeu. Não haviam mais máscaras de proteção nas prateleiras e eu era a única cliente no local.

Também expus minha opinião contrária a de uma amiga num grupo das amigas de infância quando ela, pegando a deixa da opinião do pai, achou absurdo o fato do governador de Alagoas ter “confiscado” os materiais de uma loja (lembrando que a palavra é requisição e tudo está respaldado na portaria nº 2087 de 2020), o que demonstrava que o estado “sempre agia para confiscar a propriedade privada dos empresários”.


Eu poderia ter passado esse tempo sem perdê-lo debatendo isso, mas me senti obrigada a explicar o óbvio para pessoas sem empatia e mínimo bom senso.

Na arrumação durante a quarentena, também descobri livros e discos que tenho e havia esquecido tanto da presença deles no quarto (lá em cima, num maleiro, um pouco empoeirados) quanto do conteúdo que tanto gosto e se faz presente nas páginas/encartes. Tentei não parecer piegas até aqui, mas a quarentena me mostrou os arquivos físico, táteis, de sentimento que há muito eu havia esquecido em meio a tantos drive e nuvens.

A quarentena também está me fazendo ter a paciência que não sabia que tinha (ou até então não havia desenvolvido, vai saber): desde repetir pela terceira, quarta vez a minha avó que, de fato, o remédio da pressão era aquele e ela deveria tomá-lo pela manhã (isso sob falas dela dizendo “mas não era esse o remédio, vocês não estão me enganando, não?”) até a paciência de tentar desmentir mil e um vídeos recebidos sabe se lá de quem pela minha mãe, armada com seu celular e aplicativos de mensagem, sempre propagando mentiras sobre o vírus ao redor do mundo.

Os exercícios físicos também tentei manter na rotina, mas até agora só fiz por três dias e me dei, digamos, a liberdade poética de comer sem culpa o bolo de chocolate totalmente envolto em calda que minha mãe faz com maestria. Sim, quarentena também é momento de se permitir, oras! No mais, espero mesmo que isso acabe o quanto antes para que as pessoas voltem a sua rotina diária dentro do que for possível — porque tenho a certeza de que, após esse período tão longo quanto louco, nossas vidas darão, cada uma a seu jeito, uma guinada que minha geração (os nascidos dos anos 80 em diante) nunca presenciou em diversas áreas.

Sábado, 19h30. Enquanto estou terminando de escrever esse texto, o governador anuncia: há mais dias pela frente.

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Coletivo participativo e ativo de jornalismo independente em Alagoas que busca dar visibilidade às vidas e aos fatos dos que são colocados à margem.
 

@2020 O Que Os Olhos Não Veem

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