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O espetáculo não terminou: em meio à pandemia, grupos fazem campanha para ajudar classe artística

Fora de cena devido aos decretos do Governo, profissionais enfrentam dificuldades em AL


Espetáculo Entre Rio e Mar Há Lagoanas. Foto: Amanda Moa

Texto: Jean Albuquerque


Os aplausos, as cortinas, os figurinos, a atuação dos atores, o som e a iluminação saíram de cena dos palcos alagoanos com a publicação do primeiro decreto estadual de calamidade pública em razão novo coronavírus. Desde o dia 20 de março, profissionais do teatro estão sem conseguir trabalhar e vivendo de um amanhã cada vez mais incerto.


À reportagem do O Que Os Olhos Não Veem, a atriz e produtora cultural Wanderlândia Melo contou o que tem feito para manter-se financeiramente durante a pandemia da Covid-19. “Os espetáculos que estavam programados para entrar em cartaz no segundo semestre foram cancelados e os ensaios das novas produções com desejo de estreia para ainda esse ano também seguiram o ritmo. Nas primeiras semanas os grupos que faço parte estavam recebendo o “baque” dessa nova realidade e sem perspectiva do que fazer”, desabafa.


Coordenando a Casa Sede, um ambiente autônomo em Maceió que abre as portas para artistas e grupos fazerem ensaios, dar aulas e promover eventos, a artista conta como tem sido a luta para manter o espaço funcionando.


“A Casa Sede fechou suas portas por uma questão de segurança dos artistas e moradores da casa. Estamos em quarentena, mas recebendo doações de outros artistas, como alimentos, ou alguém que possa pagar alguma conta da sede (internet ou luz) para mantermos as portas abertas depois desse momento”, ressalta.



Atriz e Produtora Cultural Wanderlândia Melo. Foto: Benita Rodrigues

Em meio ao distanciamento social, artistas têm realizado as conhecidas lives para arrecadar donativos. Sobre o assunto, Wanderlândia pontua. “Mais do que nunca entendemos de forma concreta que a arte é um direito e que valorizar os artistas, que agora estão se reinventando nas famosas lives, não é somente dar like, mas investir para que nós continuemos trabalhando, agora".


Além de iniciativas interativas e pensar nos artistas para além das transmissões ao vivo, o grupo da Casa Sede anda se inscrevendo em editais emergenciais nacionais e estaduais para conseguir continuar trabalhando. “Assim como esse auxílio emergencial do Governo Federal, que deu um salve para o emergencial (risos). Mas ainda estou aprendendo a viver nesse momentâneo estilo de vida, projetando o possível para o depois, pois a maioria das minhas produções são feitas para fazer aglomerações. Reinventar e sofrer menos. Essa é a meta”, afirma.


A realidade do artista da dança e iluminador Jessé Batista durante este período também não tem sido fácil. "Tenho utilizado uma reserva mínima financeira de cachês de trabalhos anteriores. Como o meu trabalho não há nenhuma fonte de renda atual, pois tudo está fechado, teatros e espaços culturais, estou tentando reduzir ao máximo as despesas para conseguir me manter até o fim dessa pandemia”, relata.

Espetáculo: Mini Cabaré Tanguero. Foto: Amanda Moa.

Batista já desenvolveu trabalhos junto ao grupo Clowns de Quinta e atualmente estava envolvido no espetáculo Mini Cabaré Tanguero, da artista Julieta Zarza. O técnico montava e operava a luz da apresentação. “Tínhamos um cronograma de apresentações que foi cancelado por conta da pandemia e estamos sem previsão de quando retornaremos”, conta.


De mãos dadas


Uma das mais antigas companhias de teatro, a Joana Gajuru, lançou uma campanha recentemente com o intuito de arrecadar doações para os artistas alagoanos que tiveram seus trabalhos interrompidos pela crise da Covid-19. O projeto se chama “Arte Que Te Quero Viva” e propõe auxiliar a classe artística local nesse momento tão difícil.


De acordo com a atriz e diretora da Joana Gajuru, Waneska Pimentel, essa é a segunda ação que o grupo promove. A primeira aconteceu há um mês, logo após o primeiro decreto do Governo de Alagoas entrar em vigor, e consistiu na venda de um espetáculo antecipado da atriz Ivana Iza. A renda foi revertida em 30 cestas básicas e o grupo arcou com mais 30 kits de limpeza e higiene.





“Neste momento já estávamos extremamente preocupados e ficamos mais ainda porque nos víamos nossos companheiros em grandes dificuldades. Decidimos abraçar essa campanha que é pensada por muitas pessoas que estavam preocupados com a situação. Vamos tentar arrecadar alimentos, materiais de limpeza, higiene e vale gás. As pessoas podem entregar esses insumos e também abrimos uma vakinha online para a captação de recursos. Porque nós sabemos que seremos os últimos a voltarmos com às nossas atividades. E então durante dois meses nós vamos arrecadar para tentar aportar e ajudar nesse período que vai além de dois meses”, disse.


Em relação à distribuição dos recursos acontecerá da seguinte maneira: os profissionais (pessoas físicas) ligados às artes no Estado que estejam precisando de ajuda serão atendidos. No site do Joana Gajuru foi disponibilizado um cadastro para que possam ser contemplados também os artistas que não são conhecidos pelo grupo.


Outra iniciativa que se propôs ajudar a classe artística do Estado e não só os profissionais do teatro foi a Frente dos Artistas de Alagoas que começou a sua atuação em 17 de abril. À reportagem do O que os olhos não veem, um dos coordenadores da Frente, Diogo Oliveira contou que todos os coletivos artísticos existentes estavam focados em tentar um acordo junto com a Secretaria de Estado da Cultura no intuito de tentar um diálogo para a construção do Edital Emergencial que foi lançado pela órgão recentemente.





“A frente nasceu do caos. Ela vem desse mundo de caos, desse momento de isolamento social onde a renda dos trabalhadores da cultura foi literalmente reduzida a zero ou até a 20% do rendimento mensal. Inclusive para os técnicos que estão sofrendo muito porque a maioria da categoria dos técnicos faz um trabalho de bastidor”, contou.


Oliveira ainda afirma que se não tem artista, festas de formatura e shows patrocinados pela Gestão Pública fica difícil ter trabalho para quem está nos bastidores.


“A questão vai além da fome, além da doação humanitária. A gente também está pensando que para ter a comida na mesa precisamos de um gás, então tem questões emergenciais aí que precisam de dinheiro. Muitos artistas e técnicos não têm casa própria e moram de aluguel e se não têm trabalho como é que eles vão arcar com isso?"

A arrecadação está sendo feita da seguinte maneira: o grupo está fechando parcerias, há pessoas designadas para ir buscar as cestas básicas e também há um local específico para recebê-las. “Montamos um cadastro e as pessoas estão entrando em contato conosco. Estamos com um grupo de whatsapp e as doações são direcionadas mediante esse cadastro. Já fizemos entregas de cestas básicas para artistas no Bom Parto, no Virgem dos Pobres III, no Centro da cidade”, relata.

No tocante ao auxílio financeiro, a Frente ainda não realizou os repasses porque as doações financeiras ainda são poucas. “A gente tá disponibilizando uma conta jurídica do ator Silvio Leal. Está conta ele estava usando para o repasse de uma verba de um filme, mas aí a conta estava parada e ela acabou disponibilizou essa conta porque percebemos que por meio de vakinhas uma porcentagem do dinheiro não debitaria”, afirma.


No instagram da Frente dos Artistas de Alagoas o grupo tem desenvolvido uma programação político cultural. No último dia (1°), Dia do Trabalhador, eles realizaram um bate papo com a jornalista Lara Tapety e o operador de áudio Alessandro Calcinha sobre os impactos da pandemia na produção artístico cultural em Alagoas. É por meio das lives que a classe artística vem divulgando o seu trabalho.


“Estamos buscando parcerias com as secretarias de assistência social municipal e estadual para que possamos dar conta da demanda das pessoas que vêm nos procurando. A classe artística está desamparada, inclusive pelo Governo e a gente tá vendo que a batata quente caiu em nossas mãos. Se a gente não cuidar da gente não é o Governo que vai cuidar”, concluiu.


Ações emergenciais


O Fórum de Teatro de Maceió (FTM) começou a realizar um mapeamento sociocultural dos artistas trabalhadores de artes cênicas em Alagoas. De acordo com texto divulgado pela entidade, o mapeamento tem como proposta ajudar na construção e melhorias das propostas, buscando atender as necessidades reais da classe.


Em carta aberta enviada aos órgãos públicos, no dia 31 de março, o FTM destaca algumas medidas urgentes, como o auxílio emergencial financeiro de um salário mínimo para trabalhadores da cultura, artistas e técnicos autônomos e informais durante o período de quatro meses, distribuição gratuita de cestas básicas para os trabalhadores do setor cultural até o fim da crise, além de itens de higiene pessoal: álcool gel, álcool 70%, água sanitária e sabão, a inclusão de representação da pasta de cultura no comitê de crise que possa ser criado para garantir maior representatividade para as demandas culturais e sociais, além de outras medidas.


Edital


Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado de Cultural informou que promoveu reuniões online com membros do Fórum de Teatro de Maceió e que lançou um edital que contempla diversas categorias, inclusive, arte cênica. A Secult também ressaltou que a titular da pasta, Mellina Freitas, assinou uma carta cobrando do Governo Federal recursos do Fundo Nacional de Cultura para poder abrir mais iniciativas de socorro aos artistas alagoanos.



Confira o Formulário de Mapeamento


Confira Carta Aberta



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